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  Informativo Anticartel.com (012), 01 de março de 2007.  
 

Cegonhas “reconstituídas” trafegam livremente
sem placas em São Bernardo do Campo

De São paulo

01/03/2007 - A Polícia Federal e o Ministério Público Federal estão de posse da documentação elaborada pelos jornalistas investigativos do website www.anticartel.com que atuaram em São Bernardo do Campo. Eles receberam denúncias de um gigantesco esquema de fábricas clandestinas de cegonhas, surgido a partir de oficinas que operam supostamente como reformadoras de semi-reboques. Atualmente esse segmento representa 30% da movimentação de cegonhas no País.
Sem registros e sem qualquer engenheiro atuando na área de projetos, as oficinas reformam as cegonhas deixando-as “novas”, alterando inclusive, ano de fabricação e as especificações técnicas.
Circulam normalmente, contando com o apoio da falta de fiscalização rigorosa dos organismos competentes.
As investigações dos jornalistas iniciaram em julho do ano passado e apontaram uma série de irregularidades que estão agora sendo investigadas pelos órgãos responsáveis.

As investigações – As investigações iniciaram a partir de denúncias que apontavam o surgimento de oficinas de clonagem de semi-reboques na Grande São Paulo. Elas teriam o suporte de algumas transportadoras e já seriam responsáveis por cerca de 30% da operação de cegonhas no país. Para isso, contariam com a participação de despachantes, que atuariam na confecção dos documentos.
A maior parte das oficinas se relaciona na troca de peças, serviços e mercadorias e está localizada a um raio de 20 quilômetros uma das outras. Elas se dispersam entre os bairros Batistini e Demarchi, região em que se encontram as sedes das maiores transportadoras de veículos do Estado de São Paulo. Há denúncias do envolvimento de algumas destas transportadoras no suposto esquema de clonagem, que movimenta milhões de reais por mês.
Em três dias de filmagens, foram localizadas 11 oficinas na cidade de São Bernardo do Campo, atuando supostamente no conserto de semi-reboques. A movimentação de veículos foi acompanhada pela reportagem do website www.anticartel.com em São Paulo, a cada oito horas ininterruptas, gerando uma hora de gravações. Toda a documentação gerada pelos jornalistas, filiados à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) foi entregue à Polícia Federal que deu início às investigações.
Só na Estrada do Servidão, também conhecida como Mini-Imigrantes, foram localizadas quatro oficinas de cegonhas. A maior delas, escondida sob elevados pinheiros e sem nenhuma placa de identificação, transformava cerca de 20 veículos no momento da filmagem.
Segundo informações colhidas no local, as empresas estariam em nome de um só proprietário, pessoa ligada ao Sindicado dos Cegonheiros do Estado de São Paulo. Apenas uma das oficinas foi identificada na Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo).
Em uma simples busca pelas listas de assinantes da Telefônica e da Listel a partir do nome do acusado – que será mantido sob sigilo para não prejudicar nas investigações do Ministério Público Federal – foram identificados outros quatro endereços nos bairros Batistini e Demarchi. Em um deles, foi localizada uma transportadora de veículos. Durante as duas horas de permanência da reportagem no local, não houve nenhuma movimentação de cegonhas por aquela empresa. Os portões mantiveram-se fechados e o contato era feito apenas por campainha.

O acompanhamento – Nas idas e vindas entre o Batistini e Demarchi, muitas informações foram levantadas com moradores e mecânicos que atuam legalmente no local.
O esquema contaria com o envolvimento de mais de 200 pessoas, entre mecânicos, cegonheiros, políticos, sindicalistas e empresários do ramo de transportes. Trata-se de uma região de elevada densidade demográfica e, em alguns pontos, protegida pela legislação ambiental. Há oficinas operando dia e noite em avenidas movimentadas. O tráfego de cegonhas entre as oficinas é intenso e oferece indícios suficientes da possível prática de clonagem, uma vez que dezenas de cegonhas são vistas circulando sem qualquer identificação por placas do Detran.
Para se deslocarem por São Bernardo do Campo, os cegonheiros utilizam-se de velhos caminhões, também sem placas, contrariando a legislação e contando com o apoio da ausência de qualquer espécie de fiscalização. Um deles foi acompanhado pela reportagem. Ele conduziu um semi-reboque durante quase 10 quilômetros, partindo de uma oficina na Estrada do Servidão a outra na Avenida Miro Vetorazzo, uma das maiores e mais movimentadas vias daquela região.
Pintado de amarelo e sem placas, o semi-reboque ficou naquela oficina até o cair da noite. Na manhã seguinte, ele já não se encontrava mais no local e em nenhuma das 11 outras oficinas investigadas.

A transportadora – Ainda de acordo com informações colhidas na região, os envolvidos no suposto esquema de fábricas clandestinas de semi-reboques estariam registrando as cegonhas “clonadas” em nome de transportadoras fantasmas, que existiriam só no papel.
Uma das empresas identificadas como proprietária de um semi-reboque supostamente clonado está registrada na Jucesp em uma casa semi-abandonada. Já o seu endereço obtido junto à Telefônica não existe. O representante da transportadora foi localizado atendendo em um posto de gasolina da região, próximo a um dos endereços obtidos pela reportagem. O nome da transportadora e as filmagens dos endereços fantasmas também foram entregues à Polícia Federal.

Nos dias de investigações, o website www.anticartel.com levantou material e provas suficientes para pelo menos indiciar a possível prática de clonagem de centenas de semi-reboques, num espantoso esquema montado por, possivelmente, um dos maiores grupos de quadrilheiros do país.



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