Gerente
de transportadora sofre atentado a tiros em Betim.
É o cartel, de novo!
De
São Paulo/SP e de Betim/MG
26/06/2006
- Ao encerrar uma reunião com cegonheiros autônomos
da própria empresa em que trabalha o gerente de transportes
da BMS Log, Roberto Eugênio Cardoso da Silva, jamais
imaginaria o que estaria para acontecer. Próximo das
13 horas do dia 30 do mês passado teve seu veículo
alvejado a tiros por “bandidos” na Rua José
de Souza Braga, altura do número 10, no bairro Riviera,
em Betim/MG, de acordo com o Boletim de Ocorrência 497196,
atendido pela viatura 10403. A autoria do “homicídio
tentado”, segundo o 33º BPMG, é desconhecida.
Mas o site www.anticartel.com descobriu que as circunstâncias
em que o fato ocorreu foram exatamente iguais ao acontecido
na noite do dia 29 de setembro do ano passado, na cidade de
Canoas (Região Metropolitana de Porto Alegre/RS) com
Mário Sérgio Gabardo, filho do proprietário
da Transportes Gabardo, apenas seis horas após a empresa
ter entregado proposta de frete para a montadora Iveco.
De acordo com o gerente de transportes da BMS – empresa
que carrega parte dos veículos produzidos pela Iveco
– três elementos estariam numa picape preta, possivelmente
uma Mitsubish. Ao ficarem lado a lado com o veículo
que dirigia, avistou quando o caroneiro, armado, o ameaçava.
Acelerou e acabou tendo o seu carro alvejado por diversos
disparos de arma de fogo. Os “bandidos” acabaram
fugindo. No Rio Grande do Sul, o jovem Mário Gabardo
foi morto em circunstâncias idênticas, uma vez
que, ao perceber o que seria uma tentativa de assalto, acelerou
o Peugeot 307 que dirigia e acabou levando um tiro no coração.
O crime até hoje não foi esclarecido pela Polícia
gaúcha.
Passado
O cartel que controla o setor de transporte de veículos
novos em todo o país, liderado pela ANTV – Associação
Nacional de Empresas Transportadoras de Veículos –
e Sindicam – Sindicato dos Cegonheiros de São
Paulo – tem sido o responsável por uma série
de atentados que ocorrem desde 1999. A ANTV não se
defende por estar enfrentando um interminável processo
de extinção. O Sindicam tenta fugir da responsabilidade
transferindo a autoria dos atos terroristas a filiados não
controlados pela entidade, mas divulga material para os órgãos
de imprensa a respeito de greves.
Os atos de vandalismo e as ameaças de morte visando
impedir que novos agentes econômicos ingressassem no
rentável mercado tiveram início quando a montadora
Ford decidiu incluir transportadores não vinculados
ao cartel para realizar o transporte de parte da sua produção.
Como resultado, teve dezenas de veículos incendiados
em plena luz do dia, nas barbas das autoridades paulistanas.
Voltou atrás e entregou novamente o transporte aos
líderes do cartel.
Em 2000, o Ministério Público Federal do Rio
Grande do Sul, numa atitude pioneira, decidiu enfrentar o
poderio do cartel. Investigou o setor. Encaminhou à
General Motors do Brasil uma Recomendação, determinando
a abertura do mercado e a conseqüente contratação
de transportadores não vinculados ao Sindicam e a ANTV.
Julgando-se intocável, a montadora norte-americana
disse que continuaria contratando só as transportadoras
associadas à ANTV.
A reação do MPF foi imediata. Ajuizou ação
civil pública contra a GMB, o diretor de assuntos institucionais
Luiz Moan Yabiku Junior, o Sindicam e a ANTV. Como desdobramento,
outra ação, desta vez penal foi ajuizada pelo
MPF contra Luiz Moan Yabiku Junior, Aliberto Alves (presidente
do Sindicam) e Paulo Roberto Guedes (presidente da ANTV na
época). Todas as ações estão em
andamento. Na ação civil pública, uma
liminar da Justiça Federal obrigando a GMB a contratar
outros transportadores e entregar 10% da sua produção,
até hoje não foi cumprida pela montadora. A
aplicação de multa diária no valor de
R$ 50 mil também caiu no esquecimento da Justiça
Federal. Os ataques jurídicos dos réus à
ação são permanentes, mas a liminar continua
em vigor e por isso deveria estar sendo cumprida.
Em janeiro de 2003, ao prestar depoimento ao MPF, o ex-presidente
do Sindicam, Roberto Augusto Francisco acusou textualmente
o proprietário da Sada, Vittorio Medioli, o funcionário
da mesma empresa, Miguel Campos e o presidente do Sindicam,
Aliberto Alves, de o terem ameaçado de morte, caso
não desistisse de tentar interferir no transporte da
GMB na unidade de Gravataí, no Rio Grande do Sul. Oito
meses depois, servindo aos interesses da Sada, Roberto Augusto
Francisco publicou “apedido” contendo acusações
de irregularidades a uma transportadora gaúcha que
disputava frete da montadora Iveco com a mesma Sada. Sem conseguir
provar nenhuma das acusações feitas à
empresa do Rio Grande do Sul, Roberto Augusto Francisco conseguiu
fazer com que a Iveco não contratasse a transportadora
gaúcha, sob a alegação que estava sob
suspeição e acabou entregando novamente o transporte
dos seus veículos à Sada, que cobra preços
bastante superiores ao da concorrência.
Nesse mesmo ano, um grupo de transportadoras não vinculado
ao cartel ganhou cotação de preços para
carregamentos em concessionários Peugeot de São
Paulo. Começou aí uma série de atentados
contra caminhões-cegonha. Coquetéis molotov
foram arremessados contra colegas de profissão por
associados ao Sindicam. Eles chegavam a alugar automóveis
em Porto Real, perseguir motoristas para depois atear fogo
nas cargas e disparar armas de fogo contra os cegonheiros.
Um deles chegou a ter a cabina do caminhão atingida
por sete tiros. Uma granada explodiu na residência de
um gerente de transportadora de São Bernardo do Campo.
Em inquérito comandado pela Polícia Federal
gaúcha, o delegado que conduziu a peça, depois
de grampear com autorização judicial os telefones
de Aliberto Alves, Roberto Augusto Francisco, Gilberto Santos
Portugal (diretor da Brazul) e de Otacílio Abner Miranda
Pacheco, o Cabralzinho (presidente do Sindicato dos Cegonheiros
de Minas Gerais), chegou à conclusão de que
há uma relação íntima entre os
que comandavam a ANTV e os que comandam o Sindicam. Ele também
confirmou a ligação entre os “grampeados”
e a série de atentados ocorridos no transporte de veículos
da Peugeot.
Sugestão
Dentro da filosofia investigativa proposta e perseguida pelo
site www.anticartel.com
estamos sugerindo que a Polícia Federal ingresse imediatamente
no caso do cartel existente comprovadamente no setor de transporte
de veículos novos em todo o País. E a fim de
esclarecer as dúvidas que pairam sobre a vida humana
perdida e a de tantas outras que estão a correr um
sério risco, e o possível envolvimento de integrantes
desse mesmo cartel, a PF pode solicitar à Polícia
gaúcha e a Polícia mineira, a realização
de perícia no projétil que tirou a vida do jovem
Mário Sérgio Gabardo para compará-lo
com os coletados no veículo utilizado pelo gerente
de transportes da BMS Log, Roberto Eugênio Cardoso da
Silva. Na comparação uma constatação
poderá ser feita: saíram da mesma arma ou não.
(marileide.q@anticartel.com
com alexandre.b@anticartel.com)