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  Informativo Anticartel.com (050), 14 de junho de 2006.  
 

Iveco usa mídia para aplicar calote nos concessionários e se esconde para não explicar “paixão” pela Sada
Do São Paulo

14/06/2006 - A Iveco usou vários veículos de comunicação para aplicar o calote do caminhão zero quilômetro na rede de concessionários da marca e nos consumidores. Desde 2003 faz cotação de preços para transportar seus caminhões pesados sobre pranchas, mas muitos deles continuam chegando às concessionárias rodando, apesar do falso anúncio feito pelo diretor comercial da montadora, Vicente Goduto, de que 100% dos caminhões chegariam às revendas, ainda em 2005, efetivamente na condição de zero quilômetro. A decisão da montadora causa estranheza e mostra uma “paixão desenfreada” pela transportadora Sada que, mesmo apresentando valores mais altos para a realização do transporte, acaba abocanhando o frete, numa duvidosa relação que merece investigação do Ministério Público Federal, da Secretaria de Direito Econômico e até do vagaroso Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade.
Apesar da insistência que começou em dezembro do ano passado, para o site www.anticartel.com ninguém da montadora quer falar numa clara demonstração de os chamados “executivos” preferem o silêncio a dar as explicações, se é que elas existem e que possam convencer alguém. Mas continuamos aguardando a oportunidade de entrevistar quem possa falar em nome da montadora pertencente ao grupo Fiat. Até o empresário Sérgio Mário Gabardo, da Transportes Gabardo, que havia concordado em conceder entrevista, acabou desistindo e também não quis falar.
O anúncio de Vicente Goduto, feito em agosto do ano passado, de que 100% dos caminhões Iveco seriam transportados sobre pranchas, preservando-se todas as características de veículo zero quilômetro ao cliente final, garantindo mais eficiência e rapidez à operação logística, foi publicado pela Gazeta Mercantil, Maxpressnet, Frota&cia, Tododia, Carga&cia, dentre outros.

História das cotações
Em 2003 a Iveco tentou fazer cotação de preços para o transporte dos seus veículos. Misteriosamente, o ex-presidente do Sindicam, Roberto Augusto Francisco (que relatou ao MPF ter recebido ameaça de morte de um funcionário da Sada, integrante do cartel nacional comandado pelo Sindicam e ANTV com a conivência das grandes montadoras) publicou apedido no jornal Zero Hora, acusando a transportadora Gabardo de uma série de irregularidades. Em juízo, o ex-presidente do Sindicam não teve como provar nenhuma delas e está sendo processado pela empresa.
Mesmo apresentando preço inferior ao da Sada, a transportadora Gabardo recebeu um “não” da Iveco que tomou conhecimento do apedido publicado no jornal do Rio Grande do Sul, um dia após sua publicação. Segundo a Rádio Peão, Roberto Augusto Francisco teria sido “bancado pela Sada” para desestabilizar a concorrente gaúcha.
Em correspondências assinadas em setembro de 2003 por Nuno Bigares e João Luiz Almeida, a Iveco justifica que a contratação de novos transportadores atendia “a reiterada solicitação da rede Iveco, através da sua associação, a Ancive”. Comunicou que no dia primeiro de outubro daquele ano, a empresa BMS estaria credenciada a realizar o transporte, e que “esse fato se estenderá a uma terceira empresa de transporte a nomear oportunamente”.
No mesmo dia, Bigares e Almeida encaminharam outra correspondência à transportadora Gabardo, com a seguinte desculpa esfarrapada: “... devido a algumas informações recebidas pela Iveco (leia-se apedido publicado por Roberto Augusto Francisco) envolvendo sua empresa, e enquanto referidos elementos encontrarem-se sob investigação, V Sas. Ficarão temporariamente excluídos da lista de transportadoras autorizadas a retirar os veículos referidos dessa fábrica. Salientamos que, uma vez verificadas referidas informações e prestados os devidos esclarecimentos, V. Sas. Encontrar-se-ão aptos a servir a Iveco e sua rede de concessionárias, regularizando, assim, sua habilitação para a prestação dos serviços”.
Nenhuma das irregularidades sugeridas por Roberto Augusto Francisco no anúncio pago foram comprovadas. Numa flagrante contradição, a Iveco manteve os serviços de transporte a cargo da Sada, uma das principais transportadoras acusadas pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul de participar do cartel nacional que controla o setor.
Além disso, a Iveco, que se negou a passar parte do transporte à empresa gaúcha sob a falsa alegação de possíveis irregularidades, permitiu que essa mesma empresa realizasse por um longo período, o transporte dos seus caminhões para outros países da América do Sul.
Insatisfeita com alguns detalhes nas operações de transporte, a Iveco, dois anos mais tarde, em 2005, fez nova cotação de preços para frete dos seus caminhões (que segundo Vicente Goduto, chegaria 100% aos concessionários sobre pranchas). Pela segunda vez, a transportadora Gabardo apresentou melhor performance, mas não foi contratada até agora. O serviço continua com a Sada, a custo mais elevado. Também de acordo com comentários da Rádio Peão, a Sada teria garantido o transporte ao comprar um lote de caminhões da marca Iveco, e os teria repassado a cegonheiros de São Paulo, os quais teriam sido “convidados” a adquirirem o produto.

Coincidência macabra
O possível envolvimento de integrantes do cartel na morte do garoto Mário Sérgio Gabardo, de 21 anos, filho do proprietário da Transportes Gabardo, Sérgio Mário Gabardo continua sendo investigado pela Polícia do Rio Grande do Sul. A hipótese não está descartada.
A coincidência da veiculação do apedido feita por Roberto Augusto Francisco exatamente no período de cotação de preços da Iveco, numa repentina viagem a Porto Alegre e a exclusão sumária da transportadora gaúcha justificada pela montadora, coincide com documento de posse do MPF. Durante uma reunião, o deputado federal Vittorio Medioli (está novamente sendo indiciado no Supremo Tribunal Federal) acusou a transportadora gaúcha de cometer irregularidades, curiosamente as mesmas constantes no apedido publicado posteriormente por Roberto Augusto Francisco.
A parte macabra da história fica por conta da afirmação do proprietário da Transportes Gabardo também feita ao MPF, de que havia recebido “avisos” para não entregar a cotação de preços à Iveco. Incrédulo, o empresário determinou o encaminhamento da proposta.
O documento foi enviado para a senhora Roberta, com cópia ao senhor João Luiz, às 15h16min. do dia 29 de setembro de 2006. Seis horas e 14 minutos depois, Mário Sérgio Gabardo foi assassinado em circunstâncias até hoje não esclarecidas.

Sindicam
Presidente do Sindicam por quase 10 anos, Aliberto Alves (que teve seu telefone grampeado pela Polícia Federal) protocolou ofício no dia 25 de janeiro na delegacia de Polícia de Canoas, Rio Grande do Sul, onde corre o inquérito que investiga a morte do garoto Mário, filho do empresário Sérgio Gabardo. Alves justificou que teria recebido informações através da imprensa de que “aparentemente” haveria sugestão de que o Sindicam ou ele próprio, estariam, de alguma forma envolvidos com tal fato, o que poderia macular a sua honra”. A cópia dos autos não foi autorizada, mas o advogado de Alves teve acesso à peça, causando espanto ao Ministério Público Estadual que acompanha o caso.
Não satisfeito, Aliberto Alves ajuizou queixa-crime contra o empresário, a qual foi arquivada a pedido da promotora de Justiça Aline Machado Xavier.
A promotoria alegou que a peça processual não narra a existência de crime, supõe, faz ilações, faz inferências, chega a incorrer em contradição. De acordo com o MP, o pano de fundo é, de um lado, um homicídio de autoria até agora ignorada, cuja vítima é o filho do empresário e, de outra banda, o contexto aponta a uma investigação que pública e notória envolve sérias irregularidades e ilegalidades no transporte rodoviário cegonheiro. Aline acrescentou que hipóteses levantadas durante as investigações são plenamente lícitas porque se desenvolve uma investigação sobre fatos graves, seja o cartel, seja o homicídio. Aliberto Alves terá de pagar as custas.
O Sindicam, entidade presidida por Aliberto Alves, é conhecido nacionalmente por ter em seus quadros, integrantes que desenvolvem ações de truculência e grande violência – atear fogo em caminhões-cegonha dos colegas, disparar arma de fogo contra colegas, contratação de seguranças armados, etc. Essas constatações fazem parte do relatório final da SDE, que teve como amparo, parte sigilosa do inquérito da Polícia Federal que indicou seis pessoas até agora, inclusive por formação de quadrilha.
O site www.anticartel.com tentou ouvir: João Garcia, Alberto Mayer, Angel Fiorito, Adilson Lopes Guimarães, Marcelo Bracco, Guilherme Aguiar de Andrade, Milton Demaria, Mario Parisi, Michele Treglia, Andréa Bovi, Henrique Carvalho, Décio Diniz e Souza, Clemente Pedro Ferreira, Corrado Bonaveri, Marco Antonio Piquini, Marta de Souza, a Sada e a Ancive. (marileide.q@anticartel.com)


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