Istoé
dinheiro conta a metade das broncas
da General Motors nas barras dos tribunais
De
São Paulo
01/06/2006
- A reportagem na revista Istoé dinheiro
veiculada no dia 30 de maio, contou a metade das broncas vividas
pela General Motors do Brasil nas barras dos tribunais. Omitiu
uma das maiores, sem demérito às reveladas.
O pecado ficou por conta da ausência de informações
a respeito da formação do cartel no setor de
transporte de veículos novos em todo o país,
o que rendeu à multinacional norte-americana a condição
de ré em ação civil pública movida
pelo Ministério Público Federal na Justiça
Federal do Rio Grande do Sul, o que poderá acarretar
a aplicação de multa superior a R$ 6 milhões
(R$ 50 mil por dia) porque a GMB descumpriu determinação
judicial, além de outras sanções.
Mas o rombo é maior do que a revista semanal revelou.
O diretor de assuntos institucionais da montadora, Luiz Moan
Yabiku Junior pode ser condenado em ação penal
por crimes contra a ordem econômica e tributária.
A acusação do MPF é de conivência
já que o executivo só admitia contratar transportadoras
para escoar a produção de Celtas da fábrica
de Gravataí (distante 28 quilômetros da capital
gaúcha) que fossem filiadas à ANTV (Associação
Nacional das Empresas Transportadoras de Veículos),
também ré na Ação Civil Pública
por formação de cartel junto com o sindicato
dos cegonheiros de São Paulo (Sindicam), braço
político do cartel.
Segundo cálculos do MPF que investigou o setor, o superfaturamento
no preço dos fretes causou um prejuízo superior
a R$ 10 bilhões aos consumidores. Os procuradores da
república constataram que há inúmeras
empresas que prestam o mesmo tipo de serviço a valores
até 50% inferiores, dependendo da distância e
outros componentes. Mesmo assim, a montadora manteve sua disposição
de contratar somente as transportadoras filiadas a ANTV, com
custo praticamente dobrado porque quem paga a conta é
o consumidor final, já que o valor do frete passou
a fazer parte do custo do veículo.
A ANTV é acusada de impedir o ingresso de novos associados
e com isso manter o mercado fechado, garantindo altos rendimentos
a um grupo seletivo de transportadoras. De sua parte, o Sindicam
exerce a parte política, realizando mobilizações
e greves e, por conta da suposta participação
isolada de associados, desencadeia uma série de atos
de vandalismo contra cegonheiros ou transportadores que ousarem
ingressar no mercado através da livre concorrência.
Os atos de vandalismo geraram dezenas de boletins de ocorrência,
todos confirmados pela Polícia Federal que instaurou
inquérito para apurar a organização do
sistema cartelizante. As investigações chegaram
a contar com o apoio de interceptações de ligações
telefônicas com autorização judicial ao
longo de 23 meses, onde a autoridade policial confirmou a
ligação íntima de dirigentes do sindicato
de são Paulo e de Minas Gerais com executivos de transportadoras
anteriormente associadas à ANTV.
Até agora seis estão indiciados inclusive por
formação de quadrilha, mas o número pode
aumentar à medida em que novas diligências estão
sendo realizadas a pedido da Justiça Federal e do Ministério
Público Federal.
A foto de Ray Yuong também é da Istoé
Dinheiro.
Leia a seguir o que Istoé Dinheiro
publicou e tire suas conclusões.
Problemas
em marcha na GM
Brigas judiciais com os revendedores, prejuízos recorrentes,
denúncias de sonegação fiscal –
há diversos obstáculos diante da montadora em
sua busca pelos lucros no Brasil.
A trajetória da General Motors no Brasil tem sido tão
acidentada quanto as estradas brasileiras onde rodam seus
automóveis. Nos últimos tempos, uma série
de más notícias tem perturbado a vida da filial
da maior montadora de automóveis do mundo. A empresa
apresenta dificuldades de se livrar de um persistente vermelho
que mancha seu balanço por aqui. Nos dois últimos
anos, as perdas acumuladas atingiram US$ 330 milhões.
Não bastasse isso, a companhia convive com uma arrastada
disputa jurídica com um grupo de ex-concessionários,
que pleiteiam indenizações pelo que eles consideram
“rescisão unilateral” dos contratos. Esses
processos geraram pelo menos duas denúncias pesadas
contra a montadora. Uma delas diz respeito a um eventual uso
indevido dos recursos da GM Factoring, um fundo de capitalização
controlado pela rede de concessionários e administrado
pela GM. A outra refere-se a um possível subfaturamento
de veículos importados. São esses alguns dos
problemas capazes de tirar o sorriso do rosto do canadense
de origem chinesa Ray Young, que, desde janeiro de 2004, comanda
as operações da GM.
Se a tradição de mandatos de três anos
na filial brasileira for mantida, Young, 44 anos, cumpre seus
últimos meses no País. E esforça-se para
cumprir a missão que recebeu ao ser nomeado: devolver
o lucro à subsidiária. Antes, porém,
precisará superar os problemas que avançam sobre
a companhia em marcha acelerada.
TROMBADA COM A REDE
Salvador Satriani vende automóveis numa concessionária
Renault, localizada em um prédio em Pouso Alegre (MG).
Anos atrás, ele freqüentava o mesmo local, mas
numa condição diferente. Satrini era dono da
Itasa, revenda da GM. O edifício também lhe
pertencia. Descredenciado pela montadora, ele perdeu tudo.
De empresário passou a funcionário. Assim como
ele, 117 concessionários tiveram seus contratos cancelados
entre 2000 e 2004. “Houve um período em que eram
dois descredenciamentos por semana”, diz Antônio
Carlos Martins, também ex-revendedor da marca. Ele
e outros 42 concessionários se uniram num grupo para
negociar com a GM. Até agora, não tiveram sucesso.
“Não queremos voltar a trabalhar com a empresa”,
diz Sérgio Soares, que vendia automóveis da
montadora em Birigui (SP). “Queremos ser ressarcidos
pelos nossos prejuízos.” Hoje, correm quase 90
processos na Justiça em relação a esse
assunto. Segundo Martins e Soares, a GM rompeu os acordos
unilateralmente, por intermédio de notificações
extra-judiciais.
A GM nega qualquer irregularidade. “A rescisão
do contrato de concessão é válida, prevista
em lei e nos princípios que regem a legislação
brasileira. A decisão da GM é tomada com base
em razões fundamentadas, decorrentes do descumprimento
das obrigações assumidas pela concessionária
ou por irregularidades por ela praticadas”, afirma em
comunicado enviado à DINHEIRO.
Todos os custos de fechamento das concessionárias ficaram
por conta dos proprietários. A conta inclui os encargos
trabalhistas, equipamentos da oficina, débitos com
fornecedores, reforma dos prédios desocupados, entre
outros itens. Em média, de acordo com Martins, o encerramento
de atividades consome R$ 3 milhões.
A indenização reivindicada pelo grupo soma,
além desse valor, uma compensação equivalente
a cinco anos de lucro. “Cada um deveria receber entre
R$ 5 milhões e R$ 6 milhões”, calcula
Áureo Bonilha, consultor contratado para negociar em
nome do grupo. Se todos os ex-concessionários fossem
contemplados com essa dinheirama, os cofres da GM emagreceriam
até R$ 700 milhões. “Fizemos ao longo
de décadas investimentos exigidos pela GM para atender
os padrões da empresa. Assumimos compromissos financeiros
na condição de representantes da montadora e
saímos sem qualquer indenização”,
diz Martins.
Soares, Martins e Mussi, ex-revendedores: Pedidos de indenizações
milionárias e denúncias de mau uso dos recursos
da GM Factoring, criada e mantida com recursos da rede de
concessionárias
DIREÇÃO PERIGOSA
Abriga judicial da GM com os ex-concessionários gerou
alguns filhotes. Um deles veio na forma de uma denúncia
de Arnaldo Boacnin, um dos sócios de uma concessionária
descredenciada. A acusação? A eventual má
gestão da GM Factoring, uma empresa criada e controlada
pelos concessionários da marca e administrada pela
empresa. Hoje, a GM Factoring administra algo em torno de
R$ 800 milhões. Tudo começou em 2002, quando
Boacnin procurou o Ministério Público Federal
para denunciar que a companhia “não segue os
padrões e regramentos concernentes à sua espécie”.
Entre outros fatos “estranhos” e “insólitos”,
como diz Boacnin em seu depoimento, a GM Factoring adquiriria
créditos da GM do Brasil antes desses créditos
existirem. Para isso, uma nota fiscal sem data de vencimento
para pagamento era emitida. O crédito era pago, segundo
Boacnin, mesmo sem os documentos necessários, como
duplicatas e faturas. Os ex-concessionários queixam-se
que a GM também não devolveu suas contribuições
feitas à factoring. “Isso geraria, em valores
de hoje, algo em torno de R$ 100 milhões”, afirma
Edison Mussi, que possuía uma revenda em Nova Friburgo
(RJ). “A GM refuta veementemente qualquer acusação
de uso ilegal do Fundo. As decisões judiciais até
o momento proferidas em casos que discutem questões
relacionadas ao Fundo não constataram qualquer irregularidade
em sua constituição ou utilização”,
afirma um comunicado da companhia enviado à DINHEIRO.
DERRAPADA
NO FISCO?
Aconteceu há quase dez anos, mas continua vivo nos
processos que vários ex-concessionários movem
contra a GM. Durante um certo período, carros importados
pela filial brasileira da montadora de suas unidades na Bélgica
e na Argentina chegavam às revendas acompanhados de
dois documentos. Um deles era a nota fiscal com o valor do
veículo. Dias depois, o concessionário recebia
uma nota de débito, emitida pela GM. Nela eram cobradas
despesas com peças e treinamento para profissionais
de venda e assistência técnica. Na primeira,
incidiam os impostos previstos nesse caso. A segunda ficava
isenta desses tributos, embora o concessionário pagasse
as duas. Os serviços não eram prestados, segundo
os denunciantes. “O treinamento de funcionários
é realizado apenas uma vez para cada modelo de veículo”,
diz Antônio Carlos Martins. “Mas a GM cobrava
o mesmo serviço para cada unidade faturada. Além
disso, se houvesse despesas com peças, uma nota fiscal
deveria ser emitida para esse fim.” Exemplo: em 19 de
junho de 1997, a Martins Veículos, de Bauru, recebeu
uma pick up Silverado, fabricada na Argentina, com uma nota
fiscal no valor de R$ 32.125,24. No mesmo dia, a GM enviava
uma nota de débito de R$ 5.390,89 a título de
serviços prestados que deveriam ser pagos pela concessionária.
Ou seja, a Martins pagou nesse caso R$ 37.516,13, mas os impostos
só incidiram sobre R$ 32.125,24. “Há todas
as características de sonegação fiscal”,
diz a advogada Maria Theresa Pero, que defende diversos ex-revendedores.
A GM diz que não comenta casos em andamento na Justiça,
mas afirma que segue à risca todas as leis vigentes
no País.
COM
O PÉ NO FREIO
É como se fosse uma nova espécie de vírus,
que cede ante a ação dos antibióticos
mas não sucumbe totalmente. No ano passado, o prejuízo
da GM bateu em cerca de US$ 80 milhões. Em 2004, havia
sido de US$ 249 milhões. A empresa responsabiliza o
câmbio, que prejudica suas exportações
e a alta carga tributária do País. A GM ainda
sofre em função de sua vocação
no desenvolvimento de carros médios e grandes. No Brasil,
os compactos dominam dois terços do mercado. “Aí
está a predominância de concorrentes como Volks
e Fiat”, diz André Beer, um ex-executivo da montadora.
Mas há um outro fator: a montadora possui três
fábricas em território brasileiro, duas delas
nos pólos de maior salário do setor metalúrgico,
São Caetano do Sul e São José dos Campos,
ambas no estado de São Paulo. Nessas duas cidades,
os trabalhadores ganham pelo menos o dobro de seus companheiros
em Betim (MG), casa da Fiat, e em Camaçari, onde a
Ford concentra sua produção. Outra diferença
está na produtividade dessas plantas. Enquanto Volks
e Fiat produzem 34 carros por funcionário, o índice
na GM não ultrapassa 27. Por isso, há duas semanas,
a GM anunciou a demissão de 960 funcionários
em São José dos Campos e a contratação
de 970 na unidade de Gravataí (RS), onde os salários
encontram-se na casa dos R$ 1 mil, contra os R$ 2,3 mil pagos
no estado de São Paulo. “Os trabalhadores pagam
com seus empregos pela queda das exportações”,
diz Luiz Carlos Prates, presidente do sindicato dos metalúrgicos
de São José.
Joaquim Castanheira – Istoé Dinheiro