Jornal
de Brasília destaca combate aos cartéis,
mas esquece o setor de transporte de veículos
De Brasília
27/01/2006
- O jornal Correio Braziliense publicou matéria destacando
a atuação da Secretaria de Direito Econômico
(SDE) no combate aos cartéis em todo o país,
mas esqueceu de um dos maiores casos: o cartel que impede
a livre concorrência no setor de transporte de veículos
zero quilômetro em todos os estados brasileiros. O site
www.anticartel.com
tem noticiado com veemência os fatos, principalmente
porque causa prejuízos gigantescos aos consumidores.
Republicamos a matéria do Correio Braziliense para
que o internauta acompanhe.
Secretaria de Direito Econômico (SDE) se arma para atacar
uniões fraudulentas entre empresas que prejudicam o
consumidor e impedem a competitividade. Construção,
cigarros e suco de laranja são alguns dos alvos.
O país ainda padece com um dos maiores males à
livre concorrência. Os cartéis se multiplicam
em muitos setores, prejudicando os consumidores com preços
altos e as empresas eficientes que tentam competir de verdade.
Consciente dos problemas que essa prática ilegal gera
à própria economia, a Secretaria de Direito
Econômico (SDE), do ministério da Justiça,
armou-se para tentar coibir com mais eficiência esses
crimes. Nos últimos três anos, criou programas
que incentivam o surgimento de denúncias a partir de
membros do próprio cartel e prêmios para as empresas
competitivas.
“O cartel é de longe a violação
que mais prejuízo causa aos brasileiros”, afirma
o secretário da SDE, Daniel Goldberg. O rombo causado
por essas práticas é imensurável, mas
basta ver quanto se lucra por ano em alguns setores investigados
pelo Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC).
Bebidas movimentam anualmente no Brasil R$ 10 bilhões;
cigarros, R$ 8,5 bilhões; e gases industriais, R$ 2,4
bilhões, por exemplo.
O primeiro resultado da iniciativa contra os conluios é
a exposição cada vez maior das companhias que
são pegas combinando suas táticas de mercado
com as concorrentes e a criação de ameaças
reais aos criminosos. A última ação da
SDE, divulgada ontem, tornou pública a existência
de indícios de cartel entre as quatro maiores indústrias
de processamento de suco de laranja de São Paulo. Pelo
processo, as empresas Cutrale, Montecitrus, Coinbra e Citrovita
teriam feito acordos para dividir o mercado e fixar condições
comerciais de compra de laranjas. A criação
do cartel também teria o aval da Associação
Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus).
Juntas, as empresas detêm cerca de 80% do mercado.
Na última terça-feira, equipes da SDE e da Polícia
Federal realizaram uma operação de busca e apreensão
de documentos e computadores para gerar provas do crime contra
a concorrência. O presidente da Abecitrus, Ademerval
Garcia, reclamou das investigações. “A
ação foi legal, pois havia mandado, as pessoas
foram simpáticas, mas foi tudo desnecessário.
Há uma onda paranóica contra o setor citrícola”,
criticou. As exportações de suco de laranja
movimentam US$ 1,5 bilhão por ano ao Brasil, o maior
produtor no segmento.
Paranóia ou não, o fato é que a SDE resolveu
dar prioridade à investigação de denúncias
contra cartéis, não apenas no mercado de suco.
O principal foco em 2003 e 2004 foi a construção
civil, por ter impacto em uma vasta cadeia na economia. Foram
abertos processos contra produtoras de areia, cimento, vergalhões
de aço e britas. Os dois últimos já estão
julgados inclusive pelo Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade), última esfera do SBDC, e as
empresas foram condenadas. Produtos da área de saúde
também fizeram parte da lista de prioridades da equipe
da secretaria. A prioridade para 2006 será o setor
de infra-estrutura.
Novos métodos
Para se tornar uma real ameaça aos cartéis,
a SDE assumiu antigas funções, previstas desde
1962 pela legislação da concorrência,
mas que jamais haviam saído do papel. Uma ferramenta
fundamental é a possibilidade de a própria secretaria
conseguir mandados de busca e apreensão de documentos.
Antes, a SDE ficava a reboque das iniciativas do Ministério
Público e da Polícia Federal.
A coleta de provas mais concretas por parte da secretaria
permitiu que os empresários começassem a ser
indiciados por crimes como formação de quadrilha.
Agora, além da multa, quem se une em cartel corre o
risco de ficar de dois a cinco anos na cadeia.
Outro instrumento de forte impacto é a criação
de um programa de leniência. Trata-se de um perdão,
total ou parcial, do empresário que denunciar o cartel
do qual participa, fornecendo documentos e outras provas do
crime. “Agora a empresa sabe que tem o risco externo,
representado pela SDE, e o risco interno, representando por
alguém do próprio cartel sair, bater aqui e
entregar todos os documentos”, define Goldberg. O programa
é um sucesso e a secretaria já está negociando
seu sexto acordo.
Na linha da prevenção, a SDE implantou um programa
para premiar o bom empresário. No sistema, a empresa
aprende como ser mais eficiente, melhorar sua gestão
e que a boa concorrência faz bem inclusive para o empresariado.
Quem passa pelo programa é certificados pela SDE.
2003
As investigações
Segurança privada
Resultado do primeiro acordo de leniência no Brasil.
Com a ajuda de funcionários de uma das empresas envolvidas
foi possível chegar a documentos que sugerem a existência
de um cartel envolvendo seis companhias e sindicatos do setor
no Rio Grande do Sul
Areia
A SDE investigou 25 empresas que atuam no mercado de areia
lavada em São Paulo. O combinação de
preços no setor teria a participação
do Sindicato das Empresa de Movimentação de
Areia e Pedra e Logística da Grande São Paulo
(Sindapa)
Cimento
Pesa sobre as 10 maiores fabricantes de cimento do país
a suspeita de cartel para excluir a concorrência no
mercado de concreto. A estratégia era elevar o preço
do cimento vendido às concreteiras. O golpe permitiria
a expansão das empresas do cartel no mercado de concreto
Britas
Sob a coordenação do Sindicato da Indústria
de Mineração e Pedra Britada do Estado de São
Paulo (Sindipedras), as empresas combinavam o volume de produção
de cada uma, direcionamento e cotas de vendas. Foi o primeiro
caso com busca e apreensão de documentos feito pela
SDE
Combustíveis
Cartéis de postos de combustíveis em Brasília
(DF), Lajes (SC) e Recife (PE) foram investigados pela SDE,
que sugeriu a condenação ao Cade. As investigações
constataram que havia combinação de preços
pelos revendedores nas três cidades
Vergalhões
de aço
As empresas Gerdau, Belgo-Mineira e Barra Mansa são
acusadas de se unirem para fixar preços e dividir o
mercado de vergalhões de aço. Após intensa
batalha judicial sobre o caso, a SDE sugeriu a condenação
das três empresas
2004
Gases industriais
Os indícios de combinação de preços
na revenda dos gases industriais e medicinais pelas cinco
maiores empresas do setor teve desdobramentos na esfera criminal.
Os executivos das companhias foram indiciados pela Polícia
Federal por formação de quadrilha
Operação
Vampiro
A SDE processou 24 empresas e quatro dirigentes envolvidos
no escândalo da compra de hemoderivados pelo Ministério
da Saúde. As companhias são acusadas de divisão
de mercado e formação de cartel para fixar preços
e condições de revenda
Telefônicas
As três concessionárias de telefonia fixa Brasil
Telecom, Telefônica e Telemar são acusadas pela
Embratel de evitar a concorrência entre si, fora das
áreas onde atuam originalmente. A estratégia
estaria na definição de preços anticoncorrenciais
nas ligações de longa distância
Ambev
Denúncias da Schincariol levaram a SDE a investigar
dois programas de fidelização e bonificação
implantados pela Ambev nas distribuidoras de bebidas. A maior
cervejaria do país também é suspeita
de usar a marca Antarctica de forma predatória
Gás
de cozinha
A SDE sugeriu a condenação de cinco revendedores
de gás de cozinha (GLP) em São Sebastião
(DF) e do Sindicato das Empresas Revendedoras de Gás
da Região Centro-Oeste (Sinergás) por formação
de cartel. Investigação igual foi feita na cidade
de Paranavaí (PR)
2005
Frigoríficos
Diversos frigoríficos teriam se reunido em São
José do Rio Preto para uniformizar os critérios
para a compra de bois para abate, processamento da carne e
venda ao consumidor. As denúncias foram feitas pela
Câmara dos Deputados e pela Confederação
Nacional da Agricultura (CNA)
Internet
A SDE emitiu medida preventiva contra a Telemar para impedi-la
de praticar preços discriminatórios no provimento
de Internet. A empresa é acusada de beneficiar seu
próprio provedor, o Velox, com preços diferenciados.
A Brasil Telecom é acusada de fazer o mesmo com o BrTurbo
Cigarros
A Phillip Moris e a Souza Cruz estão sendo processadas
por irregularidades em seus contratos com revendedores. Os
contratos exigem exclusividade na exposição
dos produtos da marca definida e no merchandising dos produtos
vendidos tanto no atacado quanto no varejo
Vitaminas
Basf, Aventis e F. Hoffmann La Roche uniram-se em um cartel
de dimensões internacionais para controlar o preço
das vitaminas sintetizadas. O acordo atingiu as filiais das
companhias na Europa e América Latina e foi desvendado
pelo governo dos Estados Unidos
Gás
de cozinha
Oito distribuidoras de gás de cozinha (GLP) foram investigadas
pela SDE por controlares o preço de venda na região
de Uberlândia e Araguari, em Minas Gerais. O cartel
foi denunciado por um funcionário de uma das companhias
Transporte
de veículos zero quilômetro...?
2006
Suco de laranja
Quatro produtoras de suco de laranja, que juntas têm
80% do mercado, estão sob a mira da SDE. Acredita-se
que as reuniões para definir preços e dividir
o mercado fornecedor eram feitas com o apoio da Associação
Brasileira dos Exportadores de Cítricos.(Abecitrus).
Correio
Braziliense/Mariana Mazza (texto) Adauto Cruz (foto)