CADE
poderá aplicar multa de R$ 6 milhões ao Sindicam
e a ANTV por formação de cartel
De Brasília
06/01/2006
-
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE)
vai julgar a Associação Nacional das Empresas
Transportadoras de Veículos (ANTV) e o Sindicato dos
Cegonheiros de São Paulo (Sindicam) por formação
de cartel. Se condenadas, as duas entidades poderão
pagar multa de até R$ 6 milhões. O pedido de
condenação foi feito nesta quarta-feira (4)
pela Secretaria de Direito Econômico (SDE) do ministério
da Justiça, após encerrar relatório de
investigação no qual aponta que 12 empresas
ligadas a ANTV dominam o setor no País, com a participação
efetiva do Sindicam.
A investigação conduzida há mais de três
anos pela SDE concluiu que a ANTV e o Sindicam dominam o mercado
de transporte de veículos das montadoras para as concessionárias,
feitos por caminhões-cegonha, o que resultou em prejuízos
à concorrência e também aos consumidores,
pois elevou o valor do frete.
A SDE também afirmou no mesmo relatório, que
a ANTV era, na verdade, uma fachada para a operação
de um cartel das transportadoas de veículos. Esse cartel
era possibilitado pela utilização do Sindicam,
que controla para que somente os caminhoneiros associados
possam trabalhar. “Isso tudo acabou prejudicando o consumidor
final que acaba pagando mais caro pelos carros”, explicou
o secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg.
Durante a investigação, que contou com a ajuda
da Polícia Federal e do Ministério Público
Federal do Rio Grande do Sul, a SDE constatou que as empresas
de transporte que não participam do cartel são
obrigadas a abandonar a prestação de serviços
para as montadoras porque não conseguem mão-de-obra.
Os caminhoneiros filiados ao Sindicam trabalham apenas para
as 12 empresas integrantes da ANTV.
Na versão pública do relatório encaminhado
pela SDE ao CADE (também será publicado pelo
www.anticartel.com
no início da próxima semana), os técnicos
da secretaria explicam que o cartel domina os serviços
prestados para montadoras que representam 80% do mercado brasileiro.
Segundo o documento, existem outras empresas não-associadas
a ANTV que vêm atuando no mercado, transportando par
algumas montadoras. No entanto, nenhuma delas consegue prestar
seus serviços de transporte de veículos para
as principais montadoras do País.
O processo administrativo da SDE também constatou que
foram detectados casos de montadoras que enfrentaram protestos
violentos, que acabaram até mesmo com incêndio
de caminhões, quando tentavam fugir do esquema montado
pelo cartel. Na nota, a SDE relata um depoimento da Volkswagen
que mostra a força da ANTV e do Sindicam.
O relatório ainda indica que o fato de que um grupo
reduzido de empresas e de transportadores autônomos
deter grandes participações de mercado não
se explica por critérios (de qualidade, por exemplo),
mas pela capacidade de mobilização dessas categorias,
que realizam greves para impedir o escoamento da produção
das montadoras, desestimulando a contratação
de outros transportadores.
O advogado do Sindicam, Laércio Farina, classificou
as acusações da SDE como falácias e o
relatório da entidade como absurdo. Ele disse que o
mercado é livre e que nunca houve qualquer acordo entre
o sindicato e a ANTV para combinar preços de fretes
ou para prejudicar a entrada de concorrentes na atividade
(leia matéria abaixo intitulada “Cegonheiros
têm exclusividade no transporte de carros até
l,8 milhão de unidades”). “Não houve
qualquer ingerência da ANTV sobre o Sindicam”,
argumentou Farina, esquecendo que no final de 2004 o Sindicam
organizou uma greve nacional por ser contra a determinação
da Justiça Federal do Rio Grande do Sul que obrigou
a General Motors a contratar novos transportadores para escoar
10% da produção de Celtas.
Já o advogado da ANTV, Mauro Grinberg, preferiu não
se pronunciar sobre o caso. Ele afirmou que prefere fazer
a defesa da associação no CADE. A ANTV está
em liquidação judicial há cerca de um
ano, mas segundo a investigação da SDE, continua
em franca atividade. Com informações de O Globo,
do Jornal da Globo e do Jornal do Comércio, de Porto
Alegre/RS.
(gilson.n@anticartel.com)
Cegonheiros têm exclusividade no transporte
de carros até 1,8 milhão de unidades CINDY CORRÊA
da Folha Online, em 28/08/2003 (16h56min)
As montadoras só poderão buscar outra opção
de transporte dos seus veículos dentro do país
depois que atingir um volume de 1,8 milhão de automóveis
produzidos.
O problema é que a produção desse volume
de automóveis e veículos leves não tem
previsão de acontecer. Este ano, deverão ser
produzidos 1,8 milhão de veículos, mas incluindo
caminhões, ônibus e tratores. Contando-se apenas
os veículos comerciais leves, a previsão é
de produzir 1,3 milhão.
Segundo o diretor de transportes da Volkswagen, Richard Schües,
o setor fechou um acordo com os transportadores de veículos
via rodoviária, conhecidos como cegonheiros, dando
garantia de exclusividade de uso desse serviço até
que fosse esgotada a capacidade atual dos cegonheiros.
O acordo foi fechado há dois anos em uma tentativa
da Ford e da Renault de utilizar o transporte marítimo
para levar veículos até o Nordeste. No contrato,
as montadoras garantem que irão usar o transporte rodoviário
até que atingir 1.8 bilhão de quilômetros,
o que Schües calcula suficiente para movimentar 1,8 milhão
de veículos.
Especialistas do setor de transporte e logística consideram
um desvio o uso exclusivo de cegonheiros para movimentar os
carros no Brasil, mesmo nas ligações de longa
distância como São Paulo e Nordeste.
As montadoras tentaram em momentos anteriores romper a dependência
dos cegonheiros, segundo o executivo, mas não conseguiu.
"Utilizar o transporte marítimo para veículos
no mercado doméstico não depende da minha vontade
ou da dos meus colegas da Anfavea (associação
das montadoras). Depende do mercado fechado dos cegonheiros",
disse insinuando que um dos setores produtivos mais fortes
do país está refém dos transportadores.