Temor
de enfrentar o cartel impede GM
de reduzir custo de produção do Celta
De São Paulo
05/01/2006
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A exemplo do que acontece com as outras grandes montadoras
do país, o temor de enfrentar o cartel que cobra preços
abusivos no frete e controla o setor de transporte de veículos
zero quilômetro impede a General Motors do Brasil de
reduzir os custos de produção dos automóveis
Celtas fabricados no complexo automotivo de Gravataí,
no Rio Grande do Sul. Ontem, o gerente de logística
da montadora, Sérgio Capalbo declarou que pretende
diminuir em cerca de 10% o valor final desse modelo, através
da contratação de fornecedores gaúchos.
Mas a declaração, ainda que recheada de boas
intenções não espelha a realidade das
decisões colocadas em prática pela GM. Atualmente,
90% dos componentes que integram o Celta são oriundos
das sistemistas que têm produção no eixo
Rio/São Paulo.
Falta coragem na decisão para romper com o cartel e
assumir a autonomia para escolher as empresas mais competitivas
na área. As atuais transportadoras cobram, em média,
R$ 900,00 por veículo transportado de Gravataí
ao Centro de Distribuição de São Bernardo
do Campo, mas pagam pouco mais de R$ 400,00 aos chamados cegonheiros
autônomos, embolsando o restante. Por ordem da Justiça
Federal, a GM realizou cotação de preços
para contratar nova transportadora para carregar cerca de
10% da sua produção. Quase um ano depois, contratou
a Júlio Simões, especializada no transporte
de lixo e que nunca havia carregado um veículo sequer.
Mas o valor cobrado pela empresa de Mogi das Cruzes ficou
50% inferior aos pagos
às demais transportadoras que participam do cartel.
A Júlio Simões está cobrando aproximadamente
R$ 400,00 por veículo transportado, contra os R$ 900,00
das demais.
Ou está faltando coragem para dar um basta nos exageros
cobrados por conta do frete (que acaba repercutindo diretamente
no bolso do consumidor e impedindo a redução
de custos na fabricação do Celta) ou tem gente
grande ganhando muito dinheiro com a manutenção
do sistema cartelizante, ou o gerente de logística
da GM está a dizer bobagens.
Só com a contratação da Júlio
Simões, a GM está economizando R$ 400,00 no
frete de cada Celta transportado. Para um lote de mil veículos,
a redução chega a R$ 400 mil. Multiplicando-se
este valor pela produção de 120 mil veículos,
a economia poderia alcançar R$ 48 milhões, ou
o equivalente a R$ 4 milhões mensais.
Frente aos números, por quê a GM não contrata
outras transportadoras que cobram mais barato pelo frete?
Em janeiro e fevereiro de 2003, a consultoria internacional
A. T. Kearney, especializada no setor automotivo garantiu
que o rombo ainda é maior.Conforme estudo realizado
a pedido das maiores montadoras do país, há
potencial de redução de custos na distribuição
de veículos novos no país entre R$ 500 e R$
700 milhões. O prejuízo, segundo a consultoria,
engloba, além da logística, a cartelização
do setor.
Há em todo o país dezenas de empresas transportadoras
de veículos aptas a realizar o escoamento da produção
das montadoras a valores bem inferiores aos cobrados atualmente,
mas são impedidas de operar por força e pressão
das que controlam o cartel. A confirmação consta
do relatório final das investigações
realizadas pela Secretaria de Direito Econômico (SDE)
que há três anos faz uma operação
"pente-fino" no setor.
Dentre os fornecedores gaúchos buscados pela montadora
para reduzir o custo de produção do Celta, caso
não seja do conhecimento do gerente de logística
da General Motors, Sérgio Copalbo, existe uma transportadora
de veículos com certificação ISO, que
oferece frete muito aquém dos atuais R$ 900. Participou
da cotação de preços, mas foi eliminada
por "questões políticas". A contratação
dessa ou de outras transportadoras que se negam a fazer parte
do cartel, poderia trazer uma economia de R$ 48 milhões/ano
para a montadora.
Vizinha da General Motors, a Toyota, de Guaíba, também
no Rio Grande do Sul, utiliza a mesma operadora de logística,
a Tegma, mas consegue pagar cerca de 50% do valor do frete
para transportar os toyotas, em comparação aos
celtas. Resta o senhor Sérgio Copalbo explicar por
qual motivo a GM não quer mexer no item frete, já
que passou a ser considerado como uma peça na linha
de montagem. Caso manifeste o interesse de tentar explicar,
o www.anticartel.com
está à disposição. (marileide.q@anticartel.com)