Entrevista
de transportador gaúcho traz novos fatos e complica
o cartel do setor
De São Paulo
03/01/2006
-
“O Mário nunca reagiria. Ele foi executado porque
a nossa empresa é contra o cartel que domina o mercado
de cegonheiros no Brasil.” A revelação
acende novo estopim nas entranhas do cartel que controla o
setor de transporte de veículos zero quilômetro.
Foi publicada pelo jornal gaúcho Zero Hora em sua edição
conjunta dos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. O autor
da declaração é o empresário Sérgio
Mário Gabardo, dono de uma das maiores transportadoras
de veículos do Sul do Brasil. Ex-cegonheiro, Gabardo
(que também gravou entrevista de cinco horas para o
site www.anticartel.com
no Rio de Janeiro) mostra sua indignação com
o assassinato do único filho, no dia 29 de setembro,
numa suposta tentativa de roubo de carro até agora
não esclarecida pelas autoridades de Segurança
Pública do Estado.
A matéria joga mais um punhado de pólvora no
cartel embebecido de álcool depois que a Polícia
Federal, com autorização da Justiça Federal
do Rio Grande do Sul, grampeou os telefones de presidentes
de sindicatos de cegonheiros e “executivos” de
transportadoras com sede em São Paulo. As gravações,
de acordo com a PF, comprovam a existência de um sistema
de cartel que está “enraizado” em todo
o País, impedindo o ingresso de novas empresas e a
livre concorrência. Até busca e apreensão
envolveu a sede do sindicato dos cegonheiros de São
Paulo que ainda não possui carta sindical do ministério
do Trabalho.
Outro material inflamável foi jogado no cartel pela
Secretaria de Direito Econômico (SDE), órgão
do ministério da Justiça, ao concluir as investigações
sobre as denúncias de formação de cartel
envolvendo o Sindicam e a Associação Nacional
das Empresas Transportadoras de Veículos (ANTV).
Na semana passada, um novo ataque ao cartel foi iniciado,
quando a SDE intimou as associações de concessionárias
das marcas Peugeot/Citroën para que dessem explicações
sobre a implantação do frete CIF (aquele que
esconde do consumidor quanto efetivamente ele paga a título
de frete). A intimação também atingiu
a montadora Peugeot/Citroën e a operadora de logística
Gefco.
O site www.anticartel.com
republica a entrevista completa feita pelo repórter
José Luís Costa, veiculada no jornal Zero Hora
para que o internauta tire suas conclusões:
marileide.q@anticartel.com
ZERO
HORA
Seguindo os passos do pai Mário Sérgio
Gabardo, 20 anos noite de 29/09/05, Canoas
Filho
único, criado a tiracolo do pai, Mário Sérgio
Gabardo segue desde bebê os passos do empresário
Sérgio Mário Gabardo. De carona na boléia
de cegonheiros, o menino baixinho e gordinho toma gosto pelos
negócios da família.
Aos 10 anos, na redação escolar intitulada A
Minha Vida, escreve: "A coisa que eu mais gosto de fazer
é ajudar meus pais na firma porque eu sei dirigir,
então, estaciono os carros dentro da empresa".
Mário é motorista desde os oito, guiando pela
primeira vez um Chevrolet Brasil, 1958, o mesmo em que o pai
começou a vida carregando tomates. Rápido em
cálculos e em contas de dividir, na adolescência
vai trabalhar no setor financeiro da Transportes Gabardo,
na zona norte de Porto Alegre. Estuda inglês, espanhol
e italiano. Curte férias em Orlando, Miami (Estados
Unidos) e Cancún (México). De presente, sempre
pede carros em miniatura.
Ao mesmo tempo, forma uma frota particular de verdade. O Chevrolet
Brasil, um Jipe, um Karmanguia, uma moto Yamaha Virago e cinco
Fusca - sua grande paixão. O menino cresce. Estuda
Direito, curso que Gabardo não consegue terminar, e
deixa brotar no rosto a barba rala.
Na empresa,
em casa, na casa da praia, o assunto de pai e filho é
só trabalho. O faro para bons negócios impressiona
o patrão.
- O guri
estava me ganhando todas. Chegou ao ponto de eu perguntar
para ele o que fazer - lembra Gabardo, inconsolável.
Em fevereiro de 2005, Mário é promovido a diretor
da frota de 200 caminhões. Usa uniforme, se mistura
aos motoristas e, para motivá-los, institui prêmios
para quem se destacar. A empresa transporta veículos
pelo Mercosul, além de Bolívia, Colômbia,
Equador e Venezuela.
- Ele sempre dizia: "É pra ficar ainda mais parecido
com o meu pai" - recorda Anderson Rafael Walker, amigo
de Mário desde a infância.
Pai
diz que o crime está relacionado a cartel
Mário cultiva antigas amizades e tem uma namorada.
Planeja uma semana de férias em fevereiro para que
ela conheça a Disney. Por volta das 21h30min de 29
de setembro, termina uma prova na faculdade e vai para Canoas
cumprir um compromisso sagrado das quintas-feiras: jantar
na casa do amigo Anderson.
Compra carnes para churrasco e chega à Rua Tomé
de Souza em seu Peugeot 307, 2005. Ao estacionar, é
abordado por um homem armado que sai de um Ka prata. O bandido
dispara antes mesmo de anunciar o assalto. Baleado no coração,
Mário arranca o carro em alta velocidade, dobra à
esquerda, mas bate em uma árvore. Instantes depois,
está morto.
- Perdi mais do que um filho. Perdi um amigo, um conselheiro,
um ídolo, um chefe - balbucia Gabardo.
O escritório do empresário está transformado
em um santuário, com imagens de Mário por todos
os cantos. Pôster, fotos, cartões, desenhos de
colégio, mensagens do filho e carros em miniatura adornam
mesas, prateleiras, estantes e paredes.
- Me diz, o que faço com isso, me diz...? - pergunta
o pai.
A polícia desconfia de uma tentativa de roubo. Gabardo
discorda:
- O Mário nunca reagiria. Ele foi executado porque
a nossa empresa é contra o cartel que domina o mercado
de cegonheiros no Brasil. (A foto também foi
publicada por Zero Hora)